VÍDEO: 'Foi o dia em que eu mais me senti violada', diz ex-funcionária do STJ sobre assédio do ministro Buzzi
10/04/2026
(Foto: Reprodução) Ex-funcionária terceirizada do gabinete de Buzzi relata episódios de assédio
Uma ex-funcionária terceirizada do gabinete do ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), relatou, em depoimento gravado, episódios em que o magistrado teria tocado suas nádegas, segurado seus braços, mostrado uma foto sensual a ela no celular e feito comentários inapropriados.
O blog teve acesso ao vídeo, publicado pelo site da revista "Veja" nesta quinta-feira (9). Assista acima.
Duas testemunhas, servidores do gabinete de Buzzi, também prestaram depoimento e confirmaram que a ex-funcionária terceirizada relatava os episódios de assédio sexual na época em que eles ocorriam, entre 2023 e 2025. O blog também teve acesso a esses depoimentos. Os vídeos estão mais abaixo, ao longo da reportagem.
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Ela fez a denúncia neste ano, após uma jovem de 18 anos ter acionado a polícia contra Buzzi, narrando ter sido tocada por ele em uma praia de Santa Catarina, em janeiro.
A ex-funcionária terceirizada disse que não denunciou o ministro antes porque tinha medo.
A defesa do ministro Marco Buzzi afirmou que repudia o vazamento dos depoimentos e disse que a divulgação “viola as regras de sigilo do procedimento”.
O ministro está afastado cautelarmente das funções desde o dia 10 de fevereiro, por decisão de seus pares no STJ. Na próxima terça-feira (14), os membros do tribunal decidirão se abrem ou não um processo administrativo contra Buzzi, que pode levá-lo ao afastamento definitivo do cargo.
Os depoimentos da denunciante e das testemunhas foram prestados no âmbito de um procedimento administrativo que fez uma apuração preliminar da conduta de Buzzi.
Veja abaixo os relatos das testemunhas:
Funcionário do gabinete de Buzzi diz que colega pediu ajuda
Servidora do STJ diz que ouviu de colega relatos de assédio do ministro Buzzi
'Ele já estava atrás de mim': leia detalhes dos depoimentos
A funcionária terceirizada contou no depoimento que entrou no gabinete de Buzzi em 2022, na função de mensageira, após se formar em direito e enviar currículos para vários tribunais. Ela disse que considerava esse emprego "a maior oportunidade" de sua vida.
Ministro do STJ Marco Buzzi
Luiz Silveira/Agência CNJ
A mulher era responsável por abrir o gabinete, às 8h, e chegava antes dos demais funcionários. Por esse motivo, ficava cerca de duas horas por dia sozinha com o ministro no ambiente de trabalho.
Segundo a denunciante, o primeiro episódio suspeito foi em 2023, enquanto ela organizava os livros do ministro.
"Aí ele me mostrando os livros nas estantes, e após colocar um de volta na estante, a mão dele passou sobre o meu bumbum. Eu rapidamente já me esquivei, achando que foi um contato acidental", relatou.
O segundo episódio, conforme o depoimento, foi quando ela foi até a despensa do gabinete para verificar um barulho que o ministro disse ter ouvido.
"Quando eu fui abrir as portas do armário, ele já estava atrás de mim. Então, eu tentei agir de forma que me tirasse daquela situação, porque era um espaço muito pequeno. E aí eu tive certeza que a primeira vez não era de forma acidental", disse.
Em outro episódio, ela relatou que o ministro a chamou para ir até a assessoria do gabinete, uma área diferente de onde ela trabalhava.
"Na hora de a gente retornar para a secretaria, ele pediu para eu assim: 'Pode ir na frente', e literalmente ele estapeou minha bunda com força. E aí eu só saí correndo, acelerando o passo na frente. E aí eu vi que foi o dia em que mais me senti violada", afirmou, chorando.
Ainda segundo a mulher, em outro episódio, o ministro a chamou para trabalhar aos sábados para organizar a biblioteca, mas "ninguém poderia saber".
"Não acabou acontecendo porque eu de forma alguma iria. Eu só não tocava no assunto e deixava cair no esquecimento", disse.
A ex-funcionária do gabinete também contou que, em 2025, Buzzi lhe mostrou uma foto de uma mulher de costas e só de calcinha, que estava no celular dele. O ministro teria perguntado, segundo o relato: "É você que estava conversando com essa moça bonita?".
Finalmente, em novembro do ano passado, a mulher disse que tomou coragem para reagir. O magistrado teria pedido ajuda para conectar um pen drive em seu computador.
"Ele se aproveitou para passar a mão na minha bunda e apertou. Eu segurei a mão dele fazendo força contrária. Quando ele percebeu a resistência, parou e começou a pedir desculpas pela 'brincadeira'. Foi a primeira vez que ele realmente percebeu meu desconforto", disse.
Testemunhas
VÍDEO mostra depoimento de ex-funcionária que acusa Buzzi de assédio
Reprodução
Dois servidores do gabinete foram ouvidos como testemunha. Eles confirmaram que a mulher relatava os episódios de assédio e disseram que tentavam ajudá-la, trocando o horário de trabalho dela e a substituindo em algumas funções.
"Isso foi há mais ou menos uns três anos [...]. Ela me chamou para conversar e falou: 'Olha, eu queria conversar com você, mas eu queria te pedir para não relatar isso a ninguém'. E aí foi que ela me falou que, por vezes, ia atender ao ministro, que ele chamava para fazer alguma coisa, [...] em alguns desses momentos ele apalpou ela, segurou o braço dela", afirmou uma servidora do STJ.
Já um servidor disse que algumas vezes encontrou a funcionária terceirizada "um pouco chorosa", perguntando "se eu poderia substituí-la em alguma demanda que o ministro porventura viesse a solicitar".
Questionado por um membro do Ministério Público se os relatos da mulher configuravam "um assédio de natureza sexual", o servidor respondeu: "Ao meu ver, sim. Vários episódios. Inclusive ela associava isso a alguns problemas de saúde desencadeados com o tempo".
O que diz a defesa do ministro
A defesa do ministro Marco Buzzi afirmou que repudia o vazamento dos depoimentos.
"O ato viola as regras de sigilo do procedimento, atenta contra as garantias fundamentais do investigado e visa, deliberadamente, pressionar o Tribunal", afirmou a defesa em nota.
"Não é casual que todos os vazamentos verificados neste caso tenham envolvido exclusivamente elementos de acusação. Os múltiplos elementos de contraprova e o interrogatório do investigado jamais receberam qualquer publicidade. A seletividade é a prova da estratégia — e o avesso da lealdade processual", prosseguiu.
"A defesa confia na independência e no histórico institucional do Tribunal para que tais manobras não alcancem o efeito pretendido", conclui a nota.